
"Queremos um novo amanha para o Afeganistao e por isso trabalhamos para que os mais jovens sejam parte de uma geraçao que nao veja sangue, que nao seja separada dos pais e submetida às misérias da guerra", disse em entrevista o parlamentar afegao Sayed Mustafa Kazimi. A esperança, afirma, está nos seis milhoes de crianças que hoje freqüentam a escola no país e vao decidir o destino de uma naçao ainda arrasada pela ofensiva contra o regime taliba. Ainda leva tempo. Antes disso, Kazimi lembra que será preciso introduzir reformas, possibilitar novos governos e facilitar o crescimento.
Ele chegou em Madrid acompanhado pela parlamentar Saifura Niyazi, responsável pela Associaçao de Mulheres Afegas. A visita inclui outras capitais européias como Bruxelas, Berlim e La Haya, e faz parte de um projeto da OTAN com o objetivo de consolidar os vínculos institucionais entre Afeganistao e alguns dos países que integram a Força Internacional de Assistência.
Kazimi e Niyazi chegaram à Espanha para tratar com o ministro de Assuntos Exteriores, Miguel Ángel Moratinos, da colaboraçao do governo espanhol com o país asiático. A Espanha mantém tropas em território afegao, soldados que Kazimi definiu como “mensageiros da paz”. Em entrevista à EFE, ele diz que as tropas nao estao ali para passar uma idéia de guerra, senao para demonstrar à populaçao que é possível viver em paz e restaurar a democracia.
Enquanto o intérprete escrevia indecifráveis símbolos em árabe no papel, Kazimi fazia questao de deixar claro que o Afeganistao nao quer colocar toda a carga nos ombros da comunidade internacional. “Nao temos a intençao de manter as tropas internacionais de forma permanente, fazendo um trabalho que é nosso”, diz. “Mas precisamos de tempo para assumir essas responsabilidades, e esperamos que nao seja um tempo longo demais”.
Com o rosto parcialmente coberto, como reza sua religiao, Niyazi tratou da vulnerabilidade feminina na sociedade afega, mas destacou um crescimento de importância das mulheres nas esfera política: elas já representam um quarto dos membros do Parlamento e mais de 20% nos Conselhos de Província.
Muito simpático e diplomático, Kazimi fazia “sim” com a cabeça e sorria enquanto o intérprete traduzia em inglês os sons que eu nao era capaz de entender. Parecia especialmente satisfeito com a última pergunta, sobre o país que espera. Respondeu poeticamente, na linguagem do Afeganistao dos sonhos. O intérprete traduziu. Kazimi me dirige as únicas palavras em inglês de toda a entrevista: “Thank you”. Com a câmera desligada, diz que as crianças assistem às aulas em acampamentos, quando nao há escolas. Em muitos casos, nem barracas existem. “Mas isso vai mudar”, espera. Sorri. E termina o breve contato entre culturas tao diferentes que por uma tarde estiveram próximas. Que loucura o jornalismo.